segunda-feira, 23 de julho de 2018
Comparando Homero e Hesíodo
Dois grandes poetas são considerados fundadores da literatura grega e, portanto, da tradição literária ocidental: Homero e Hesíodo. Apesar disso, a grande maioria dos leitores apenas conhece as duas principais obras atribuídas a Homero (a Ilíada e a Odisseia), ignorando os Hinos Homéricos e a épica cômica Batraquiomaquia. Para o leitor comum, Hesíodo permanece escondido atrás desse figura gigante (seja real, seja fictícia) que é Homero. Pessoalmente, depois das minhas primeiras leituras de Hesíodo, acho bastante compreensível que ele seja menos lido do que Homero. Supondo que a grande maioria dos leitores que chegam até Hesíodo já passaram por Homero, vou traças uma breve comparação entre os dois poetas.
A par de semelhanças formais ( os dois poetas usam exclusivamente o verso hexâmetro, a linguagem épica elevada e as fórmulas herdadas da tradição rapsódica) e do cerne temático comum (consideremos, por exemplo, a conhecida afirmação de Heródoto de que esses dois poetas criaram o panteão grego), há muitas diferenças entre seus poemas.
A primeira diferença que é evidente mesmo à mais superficial observação é a diferença de extensão: o menor dos poemas hesiódicos (Trabalhos e Dias, com 828 versos) é menor inclusive do que alguns dos maiores cantos da Ilíada ( o canto III tem 877 versos, o V tem 909 etc.).
Uma outra diferença formal diz respeito ao narrador: enquanto Homero mostra-se sempre impessoal (não usando em nenhum momento a primeira pessoa, não se referindo a si mesmo enquanto persona ou enquanto personagem histórica), Hesíodo, em Trabalhos e Dias, refere-se a si mesmo em primeira pessoa (verso 24: “disseram-me as deusas”) e trata de temas que aparentemente dizem respeito à sua vida pessoal (uma suposta intriga com um seu irmão).
Quanto à temática, os poetas também diferem. Primeiramente, devemos notar que Homero aproxima-se do que poderíamos classificar como epopeia heroica, enquanto os dois poemas hesiódicos que estudamos poderiam antes ser classificados como épico-didáticos. Apesar do cerne mitológico comum, enquanto os dois grandes poemas homéricos falam centralmente dos homens (de modo que a afirmação de Heródoto, no que diz respeito a Homero, talvez se refira sobretudo aos Hinos Homéricos) e escolhe momentos excepcionais desses homens para narrar (os últimos acontecimentos da guerra troiana e o heroico retorno de Ulisses), os poemas de Hesíodo falam sobretudo dos deuses (Teogonia) e do cotidiano não glorioso dos homens (Trabalhos e Dias). Neste segundo poema, já no verso 26, Hesíodo opõe fortemente o mundo dos deuses ao mundo mesquinho dos humanos, quando as musas falam a estes últimos: “Pastores rústicos, infâmias vis, ventre somente”. Ao passo que, em Homero, narra-se momentos espetaculares de humanos espetaculares que aproximam-se inclusive do divino: há vários momentos em que, por exemplo, um mero mortal (auxiliado por um imortal) fere um dos deuses olímpicos).
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