segunda-feira, 23 de julho de 2018

Os livros de Aristóteles sobre astronomia

Por tratar de objetos distantes e acessíveis apenas a um olhar limitado, as ideias de Aristóteles sobre os objetos e acontecimentos astronômicas parecem-me conter muito mais erros e erros muito mais graves do que os livros biológicos (cujos objetos são observáveis de perto, pelos 5 sentidos, e empiricamente manuseáveis) que contêm muitas intuições maravilhosamente corretas em seu sentido geral, se não até mesmo em seus detalhes concretos. 

Mas são belos. Se não pela poética um tanto trágica do erro do homem tateante em busca de refinar seus conhecimentos ("o homem pensa e Deus ri", diz o ditado judaico) ou, ao contrário, pelo sentimento um tanto ufanoso da glória da razão, da sua capacidade de dominar, de domar o mundo ao redor numa imagem/sistema inteligível e útil.

"Diuide et impera", diz o ditado romano se referindo à esfera político-militar. Sabemos, o método de proceder de Aristóteles é analisante e categorizante, ele distribui as coisas em classes e subclasses. Uma das belezas em ler seu livro é flagrar (e poder reviver) o homem nu diante do mundo, ainda pouco revestido do véu de conhecimentos prévios, alheios e automatizados que, nas palavras de Rilke, nos distancia do mundo, se acumulando cada vez mais entre nós e ele, como óculos especiais que não conseguimos mais tirar e que impedem nosso olhar direto, simples, nu e virgem ao mundo ao nosso redor, ou em nós. Aristóteles sabe que nossos sentidos, arbitrários que são, já são uma primeira rede com a qual capturamos esse mundo e que já o modifica e categoriza, parece intuir, como Kant, que o mundo fenomênico é o único a que temos acesso, e se distancia, assim, do idealista Platão, seu mestre (nessa oposição, não ponho qualquer juízo de valor: é apenas uma distinção). Ele tem um método e vai comendo o mundo com esse método,é faminto por abarcar o mundo com sua rede classificatória, com seu poder de compreensão, com os sentidos aliados à razão. Ele descobriu o poder dessa aliança e quer aproveitá-lo. Ele vai guardando na sua bolsa/mente cada nova parte do mundo que compreende, ele compreende para de fato "ter" o mundo, abarcá-lo. Ter não como seu pupilo Alexandre Magno o teve (ele que teve o mundo como o rei do Pequeno Príncipe), mas tê-lo de forma muito mais íntima e real, imiscuindo-se nas suas entranhas. Se Kandel descobriu que cada novo aprendizado modifica fisicamente o cérebro, saliento aqui a reciprocidade dessa última frase: o mundo imiscui-se na mente de Aristóteles, o estagirita, no mundo cosmopolita de Alexandre, "conforma-se" intimamente ao mundo: não tangencia ou segue paralelo deslizando pela superfície como a maioria dos homens, mas adentra-o (ou deixa que o mundo o adentre) até nos seus meandros.

Acompanhar a sua mente é uma delícia, seja pela variedade de experiências pelas quais viaja, seja pela própria sensação de vigor e potência que nos faz vivenciar: pegamos carona nesse jorro esplêndido ou, por outra, bicho da terra tão pequeno, voamos alto enquanto nos seguramos nessa águia de fortes asas e expandimos nosso panorama. Schopenhauer criticaria esse uso de "moletas intelectuais". Entendo que a exploração direta, como a do próprio Aristóteles) deve ser algo muito mais intenso, por exigir muito mais engajamento de si mesmo, mas não deixa de ser verdade que um dos prazeres da vida certamente é obter grandes coisas com esforço reduzido.

Aristóteles me causa, ainda, mais prazeres de erudito. Ele errou por muito a circunferência da terra? Saber isso me ajuda a dar o devido peso ao acerto de Arquimedes pouquíssimo tempo depois de Aristóteles, na brilhante cidade de Alexandria, fundada pelo famoso discípulo do estagirita. Além disso, suas obras são das raras sobre o tema que sobreviveram e são fontes importantes para Sêneca na composição do seu livro maior, as Quaestiones Naturales. Eu, que por muito tempo pensei que o adjetivo "inteligente" fosse o particípio presente do verbo "interligar" (interligante > intelligente), gosto de poder relacionar Sêneca com outros pensadores que previamente escreveram sobre os mesmo assuntos. 

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